poesia fantástica

Aslam reinante

Meu coração-submarino mergulhou profundo
assim que viu os horizontes do seu mundo
Minhas palavras não lembro onde estão
talvez escondidas nas pontas de dedos
ou guardadas dentro de caixas de papelão
Sumiu o ar rarefeito de ausências e medos
quando você rabiscou penhascos sob meus pés
e pintou brilhantes estrelas sobre meus olhos
queimei o paraquedas deixado no guarda-roupa
guardei a bússola dourada que ganhei de ti
despejei a rotina lerda, ela não mora mais aqui.

Ulisses Góes

Beleza fotografada: Carol Camilo
Fotografia: Danieli Cruz Santos Postal



Truque perigoso

Uma amargura mansa descansa por aqui
cansando minha vontade de escrever
Silêncios de papel espalhados pelo chão
Arrasto um desamor desfraldando rastros
de vastas lutas injustas e silencioso luto
Trovejam trovas agridoces esquecidas
no meu céu arranhado pelos prédios
de janelas quebradas com pedras de tédio
Algum mágico sumiu com meu lirismo
Recebo cartas com a mesma questão:
"Um amar cura teus olhos de solidão?"

Ulisses Góes



Luminescência insistente

Esse seu rosto acenando sorrisos para mim
Esse olhar acendendo constelações sem fim
iluminando todas as canções que escuto
cegando meus pensamentos a cada minuto
Contínua vontade incontrolável de escrever
sobre tardes solares e supernovas explosivas
afogar o fogo congelante da solidão corrosiva
pintar de preto todas as placas de sinalização
Desconstruir novamente seu senso de direção
Seu silêncio queimarei com prata e música calma
Minha saudade será morta no calor de sua alma.

Ulisses Góes


Alma peculiar

Ela dança descalça ao meu redor
com suas labaredas de palavras
girando em puros sorrisos e delírios
seus pés pulam piscando passos
iluminando meu caminho de lírios
e girassóis rodopiando sob meu céu
persegue assim meus pensamentos
segue minhas rotas e sentimentos
intoxica meu ar de rimas e incensos
nascida de meu choro e minha alegria
batizada desde sempre como Poesia.

Ulisses Góes



Asa sonora

Em meu jardim trincheiras se abriram
enterrando flores cheirando a saudade
atravessei desérticos estacionamentos
procurando definitivas respostas amorosas
sirenes alertam sobre paixões de sereias
mil borboletas distraídas saindo da vitrola
trezentos soldados guardando minha porta
seu horizonte céu a transbordar meus olhares
mãos faiscantes relampejando arrepios
desabam oceanos disfarçados de chuvas
Surgem amores reencarnando em poesias.

Ulisses Góes

Foto: instalação do artista
americano Paul Villinski


Vórtice afetivo

Eletrocutado por um amor anônimo
perseguindo um coração antônimo
torturado por olhares e silêncios
náufrago perdido em vasto oceano
embriagado com doses de vazios
refém pendurado em poço profundo
sufocado pela falta de abraços
sobrevivente em meu próprio mundo
paralisado por saudades congelantes
marcado pela lembrança da cicatriz
afogado pelos versos de amor que fiz.

Ulisses Góes

Mentira Branca

Os dias pulsam como promessas promissoras
e ele ainda transpira tensão e lágrimas de algodão
seus desejos evaporam nebulosos de seus poros
Corajosamente tenta perder o juízo sem prejuízo
ignorando as derrotas e os intervalos comerciais
estes imensos e silenciosos dias cínicos só lhe dão
subversivos segundos estranhos de solidão
escrevendo largos labirintos pintados de absinto
denunciando saídas de emergência bem sucinto
desertos encalhados pés descalços sem gravidade
procura cafeína e um olhar sorridente sem maldade.

Ulisses Góes


Rota colateral

Dois mil cisnes negros invadiram a conversa
antes de migrarem mansa e descaradamente
para o hemisfério direito de meu cérebro
a artista derrama azulações em meu corpo
e subo à superfície para tentar respirar o céu
antes de mergulhar em queda livre novamente
sou alpinista escalando cadeias de metanoias
experimentando uma vertigem de pensamentos
amores clandestinos, futurismos e aforismos
e antes que teu mar me faça em destroços
calmo meu navio em um submarino naufragarei.

Ulisses Góes


Inversão térmica

Provou dissabores com suas mãos frias
lavou na pia pratos sujos e distopias
da janela via sua solidão geográfica
Ali no túmulo do carteiro desconhecido
depositava acenos e sorrisos merecidos
pelas suas correspondências recebidas
regava todo dia seu jardim de charadas
circulava só em um ônibus sem paradas
declarações de amor sempre sussurradas
dormia um intenso mar de pensamentos
acordava um oceano evaporado de palavras.

Ulisses Góes



Retrofoguete incendiário

Versos pálidos de medo dessa humanidade
Mãos postas na janela apreciando a chuva
de meteoros sonoros e tempestades solares
olhos acompanhando o silêncio circulante
diluído pelos gritos de sirenes e manifestações
bocas silenciadas com promessas de beijos
destroços de muros com pornografitismo
prazeres precários engravidando sem lirismo
um simples toque e arraste para desbloquear
néctar de versos desconectando contradições
cinco segundos para aterrissar suas inspirações.

Ulisses Góes



Lirismo Autista

Escutando os sons de seu mundo particular
As propriedades de outro universo a desvendar
Solitário solto nas dimensões de seu espaço
Aprisionado na repetição de seus movimentos
Um olhar que namora o vazio de suas coisas
Passos silenciosos pelo deserto de sua rua
O aroma mágico das flores sobre a mesa nua
Fixação em entender o que está em suas mãos
Procurando seu imaginar em um vermelho funil
em um cesto de metal em um aquário vazio
em sua mente flutuando em nuvens e céu anil.

Ulisses Góes

FotografiaTimothy Archibald, do livro "Echolilia: uma
conversa fotográfica de um pai com seu filho autista"




Estátua estática

O espelho seduz os olhos de quem observa
Sensação de Terra e Céu inverte e preserva
silenciosa armadilha engolindo ingenuidades
Teu inferno não queima, apenas paralisa
Estagnando a vontade de bater suas asas
O cotidiano calcificando seus doces sonhos
Reflexo inerte acomodado fantasmagórico
viver respirar sentir voar seria o mais lógico
para o coração pulsando através do horizonte
Mas o espelho imóvel engana e sua visão limita
Seu coração ilude e sua alma, enfim, petrifica.

Ulisses Góes

Fotografia: Nick Brandt, de seu
livro "Across the Ravaged Land"



Quarto azul

Acidentes ocorrem nos dois lados do meu cotidiano
atrapalhando o trânsito intenso de minhas ideias
Descobri você disfarçado de pessoa desconhecida
colecionava abraços em meus sonhos quase esquecidos
caminho sereno no asfalto deste mundo de aturdidos
encontrando tanques de guerra, corações machucados
rastros de Morte, russos sérios e rostos sírios
Sigo destruindo distraído tentativas de atentados
pessoas desfilam seus pequenos infernos alegóricos
e enquanto eu atravesso a rua carregando minha luta
O mundo gira azulmanso antes da absolvição absoluta.

Ulisses Góes


Sentimento intrigante

Precioso precipício desenterrando alturas
Escuridão de meus olhos soltando criaturas
Sorrisos frouxos disfarçando meus medos
Uma muralha de palavras para você escalar
metal derretido em cima de meus segredos
Sinalizadores para iluminar meus escritos
Poesia me esperando no ponto de ônibus
leio em voz alta para espantar sua dislexia
frágeis são estes meus sonhos complexos
Submarino negro encalhado em terra fria
sonhando em afundar num mar de amplexos.

Ulisses Góes



Vácuo quântico

Enxergo sombras atrás de seus olhos nus
Pensamentos elétricos iluminando sua mente
eu sinto lugares sentindo saudades de mim
e essa solidão mansa como neblina densa
é apenas uma sensação rotineira imensa
superlativo relativo intensificando o sentimento
e a inevitável descontrução de meus passos
é a tentativa de sonhar novos rastros marginais
poeta sitiado neste cotidiano subversivo
fúria dos mares na tristeza de seus olhares
poesia engasgada pelo tamanho das palavras.

Ulisses Góes



Solidão oceânica

Ele tinha a missão ingrata de enterrar abismos sem fundos
resgatar tristes olhos afogando-se em lágrimas diluvianas
enxergava labirintos em asas de borboletas provincianas
Encontrava escritores perdidos e seguia poetas nômades
amores piromaníacos incendiando seu coração cicatrizado
Escutava gentileza automática de palavras após o sinal
Vontade obscura que nunca cura essa febre de desejar
uma felicidade imensa que engula mansa a eternidade
Seus olhos acendiam ansiosos iluminando o breve espaço
onde seus poemas dormiam esquecidos durante o dia
ao lado de granadas flores cartas mapas e mariposas de aço.

Ulisses Góes



Planetário Poético

Percepção perversa procurando pontos de fuga
Na distância exata estou escondido no ponto cego
Para que não perceba ainda minha vontade de abraços
Crio sombras perseguidoras e espiono pelas frestas
Planetas perambulam as míopes órbitas de meus olhos
Arrasto frases pesadas pelo ardente asfalto derretido
Movimentos tectônicos de amores não sedimentados
Acordei outro poema antes que a madrugada esfriasse
para contar sobre as estrelas que admirei em pleno dia
Sorri suspiros deixando a luz acesa para um pensamento meu
E de todos os belos pecados meu coração não se arreprendeu.

Ulisses Góes


Verso Alternativo

Desenho neologismos com meus dedos de neon
iluminando silogismos em nuvens de palavras.
Adjetivei todas as expressões presentes em seu rosto
observo a poesia flutuar pelos cômodos da casa
girando atômicas ao redor de minhas têmporas
Amores escondidos em caixas cheirando a cânfora
Guerras acontecem enquanto pisco meus olhos
Meus erros afundei em um oceano de âncoras
Enforquei a Morte esticando a corda entre os prédios
Desafiei os ventos de meus rebeldes pensamentos
Realistas fantásticos e poéticos em tempos medíocres.

Ulisses Góes



Absinto Flutuante

Viajo psicogeográfico num surto sinfônico
Transfiguro-me em poesia como fumaça arredia
Rasgo gargantas de vampiros ao cair da noite
Observo as almas dos psicopatas durante o dia
Insustentáveis pirâmides e protestos inevitáveis
A garganta molhada com doses de amores escapistas
personagens fictícios sussurram em meus ouvidos
curiosos pela continuação desta intrigante história
perguntam do sangue da derrota e do suor da vitória
Nessa realidade sem rumo, de nações descontroladas
Desenho fronteiras tentando saber onde estou vivo.

Ulisses Góes

Ilustração: London Psychogeographies,
da artista Lizzie Mary Cullen


Caligrafia Secreta

Ainda estão chovendo silêncios dentro de mim
Alguém preenche a rua com palavras no megafone
e a sensação engasgada de nenhuma alma para ouvir
Cola cartazes de pessoas sem rosto nos postes
e chora sentado admirando as avenidas abandonadas
frequenta Cafés empoeirados habitados por libélulas
e caça livros antigos em bibliotecas arruinadas
Escute os longos uivos ameaçadores no topo dos prédios
Os lobos no asfalto ainda continuam devorando Tudo
As sombras de corvos marcam seu solitário trajeto mudo
e as páginas de seu pequeno diário poético de bordo.

Ulisses Góes


Dragões Radioativos

Essa fumaça lerda que escapa mansa de sua boca
soprando uma atmosfera esférica de dores e medos
Essas palavras mornas que sangram de meus dedos
contando histórias de contemporâneas batalhas poéticas
amores incendiados e reinos dominados por fogo e cinzas
prédios sem elevadores equações sem qualquer solução
queima a pele o sentimento que brilha na escuridão
agitadas marés precipitando tsunamis avenidas adentro
Borboletas numa espiral fluente, flutuante e enfurecida
tornados intensos de versos e tempestades de palavras
girando pelas ilhas desgarradas e nos continentes à deriva.

Ulisses Góes


Calopsia Delirante

A tragédia cotidiana experimentada para virar arte
Nanopoesia flutuando livre através de suas células
alimentada pelas emoções dilacerando suas moléculas
Libélulas atordoadas na burrice de bater em vidraças
A chuva calamitosa espancando a infância esquecida
Sua rotina de retinas cansadas e memórias surradas
Morfina poética anestesiando seus provocantes demônios
Adrenalina amorosa liberada no silêncio dos hormônios
Imbecilidade alheia em achar belo este mundo decadente
Reticências assassinando as palavras em sua boca
O sentido completo de sua vida tatuado em sua nuca.

Ulisses Góes




Mapa Emblemático

Carrego um cantil seco e uma mochila cheia de pegadas
Gosto de guardar alguns passos que deixei para trás
antes que o cruel Senhor do Esquecimento os apague
guardo ainda registros históricos de amores fantabulosos
Coleciono coordenadas imprecisas e atalhos ardilosos
atravesso solidões trovejantes e ausências espaçosas
Estou escrevendo versos no verso de minha anotações
Algumas vezes sou bastante cruel com as palavras.
Vivo matando citações e estrangulando frases óbvias.
Chegará o dia em que inevitável se fará o momento
de assassinar todas as fronteiras sem arrependimento.

Ulisses Góes



Atentado Impressionante

Fenômeno Lógico desconstruir tudo que escrevi poesia
reescrever palavras impregnadas de Hélio e Heliantos
flutuando sossegadas ao redor do Zeppelin preguiçoso
cortando o céu deste mundo de fogueiras e facínoras
Destruir todos os prédios com bombas de liberdade
espancar todas as paredes esmurrar todos os muros
explodir janelas e vidraças com pássaros descontrolados
Reunir todos os versos naufragados em textos afogados
Acender faróis e escrever novas rotas para os abandonados
E estranhos poemas cartográficos aos amotinados rebeldes
que jamais souberam me ler.

Ulisses Góes
Pintura Fotorrealista: Jeremy Geddes



Cubo Mágico

Esse frio que te arrepia e te congela por dentro
essa solidão que te acompanha como uma estranha
pequenos demônios sorrindo para você noite adentro
esse medo que te abre vazios em sua entranha
Sentimento insistente que resiste em se oxidar
Rompendo e movimentando sua química interna
Deslocando e desorientando seus pensamentos
Válvulas de escape submersas no mar de lembranças
Rotas de fuga interditadas com datas de antanho
Amor maleável não corrosivo da cor do estanho.

Ulisses Góes



Poesia Fantástica

Em meu céu negro piscam frenéticas luzes conectadas
iluminando geleiras glaciais na sala de estar estacionadas
A dicotomia de meu ser não me deixa mais separar sílabas
Ela se satisfaz em me traduzir numa realidade de dualidades
Metade de mim medindo malicias melífluas maravilhosas
A outra parte sangrando escritas em desertos fantásticos
Metade de mim flutua fácil no lado escuro oculto da Lua
A outra parte ainda planeja atentados poéticos sincronizados
Metade de mim é um buraco negro levemente insustentável
A outra parte está guardada em poemas mais leves que o ar
Sugando sua atenção e derramando palavras pelo seu chão.

Ulisses Góes
 
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