quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Diário de Um Escritor Astronauta ~ Medo

 
Depois do ruído que quase estourou seus tímpanos, e das imagens que surgiram insistentes em sua viseira, o Escritor Astronauta iniciou a busca pela interceptação definitiva daquele sinal estranho com imagens que aos seus olhos pareciam familiares. "Não é possível. Isso está vagamente parecido com o que estou escrevendo", pensou. Sim, era familiar, e era difícil para ele admitir tal afirmação, ainda mais estando ciente de que ele tinha certeza absoluta de que sua ideia era original, e que ele não havia encontrado nada similar em suas pesquisas e varreduras antes de começar a escrever sua história. Tinha a consciência tranquila quanto a isso. Havia algo de errado nessa interferência que ele estava recebendo e precisava encontrar a fonte para entender o que estava acontecendo de fato. Caminhou lentamente pelo corredor do supermercado, enquanto escutava duas vozes vinda do outro lado das prateleiras conversando animadamente, um debate bastante amistoso. Avaliou as possibilidades de sincronia com a interferência de poucos segundos atrás e constatou ser ali a origem da mesma. Aqueles dois jovens parados na sessão de bebidas, debatendo sobre trechos de uma história que leram na internet enquanto escolhiam se comprariam uma garrafa de vodka ou conhaque, eram eles que estavam, sem saber, enviando aquelas interferências visuais que apareciam na viseira de seu capacete. Espiou com cuidado os dois jovens antes de entrar pelo corredor com passos fingidos de quem procurava algo naquela sessão do supermercado. Parou ao lado dos dois, olhando as bebidas na prateleira, mas com sua atenção toda voltada para a conversa. Sintonizou o máximo que conseguiu naquele debate de ideias e visualizou as imagens agora em HDTV. "A batalha psicológica entre os personagens é muito foda", dizia um deles empolgado, enquanto o outro concordava e continuava. "Demais! E eu faria o mesmo que o personagem que encontrou o livro faria, escreveria o nome de todos os assassinos, estupradores e ladrões nele, e livraria o mundo de todos eles. Usaria o Livro da Morte para matar todos eles". O escritor ficou completamente imóvel, sua mão segurando uma garrafa de vinho chileno, enquanto ele era possuído por um pensamento congelante. "isso não é possível! Eles estão falando a respeito de um Livro da Morte! O mesmo livro que meu personagem encontrou e que é a causa maior de todo seu sofrimento! Mas como?". Não demorou muito e em sua viseira apareceu uma imagem translúcida de como ele imaginou ser o Livro maldito. Coincidentemente, os jovens começaram um diálogo explicativo a respeito de como era visualmente o suposto Livro da Morte, e logo a imagem deste outro surgiu diante dos olhos do Escritor. De imediato percebeu que os livros não eram idênticos na aparência, mas sim, muito diferentes. "Mas ainda assim se trata de livros com a mesma natureza mortal, demoníaca", pensou. "Não é possível! Eu fui extremamente cuidadoso em minhas pesquisas e varreduras, e não encontrei nada que pudesse indicar que minha história pudesse ser um completo plágio de alguma outra. Será que deixei passar alguma informação, será que cochilei em algum momento enquanto fazia o rastreamento de dados?". A ideia de que toda a história que ele havia escrito até aquele momento poderia acabar incinerada completamente o deixou aturdido, fazendo-o sentir toda a força da Gravidade comprimindo seu corpo contra o chão. Sentiu uma tontura e procurou se apoiar na prateleira. Seu capacete bateu contra as garrafas à sua frente, o que chamou a atenção dos jovens. "O senhor está bem?", perguntou um deles de maneira solícita. "Sim, sim, estou. Foi apenas um leve tontura. Agradeço a preocupação", respondeu o Escritor. Os dois jovens responderam educadamente e se afastaram, cada um levando uma garrafa de vokda e outra de conhaque.
O Escritor permaneceu ali parado na sessão de bebidas por alguns segundos, tentando assimilar a situação. Pensou em seguir os jovens e perguntar a eles a respeito da tal história que eles estavam conversando, mas novamente sentiu aquela estranha distorção no tecido do espaço-tempo. Seu pensamento foi lento demais, e os jovens já haviam pagado pelas bebidas e saído do Supermercado. "Isso não pode estar acontecendo", sussurrou o Escritor, desolado. A imagem daquele livro descrito pelos jovens ainda flutuava em sua viseira, nítida, desafiadora, audaciosa, como se estivesse confrontando diretamente todo o seu poder imaginativo e criativo. Seria possível que outra pessoa já tivesse criado aquela ideia que ele tinha tanta certeza que era completamente original? Balançou o capacete, deixando as imagens sumirem lentamente. Foi nesse momento que algo surreal começou a acontecer. Começou a escutar um barulho estranho ecoando por toda parte ao seu redor. Parecia estar vindo de todos os cantos do Supermercado. Ainda parado, dessa vez com uma leve expressão de espanto, tentou prestar atenção ao estranho "som ambiente". Parecia o som de uma televisão ligada em um canal de noticiários. O escritor ficou confuso, pois o som começou a aumentar gradativamente, e agora ecoava dentro de sua mente. Olhou para os lados, e percebeu que não havia mais ninguém dentro do Supermercado. Todos haviam sumido misteriosamente. Sentiu um estremecimento estranho, e repentinamente tudo escureceu. Sentiu seu corpo paralisado, e isso o deixou completamente assustado, pois ainda conseguia escutar claramente o som daquela TV ligada, a voz do apresentador falando sobre um blecaute de energia ocorrido na índia atingindo 600 milhões de pessoas. Era como se estivesse de olhos fechados. Aturdido com aquela situação sinistra, sentiu sua respiração ficar ofegante dentro do capacete. Quase sem ar, debateu-se na escuridão, até que conseguiu abrir os olhos e respirar aliviado. Olhou ao seu redor, meio confuso, tentando entender o que estava acontecendo. Sentou-se no sofá, bateu a mão em seu capacete, viu a televisão ligada em sua frente. Estava passando o notíciario das 22 horas. "Maldição! Sempre tenho pesadelos quando deito nesse sofá para ver TV", resmungou revoltado. Não fazia ideia de como havia adormecido antes de ir ao Supermercado fazer as compras. E para piorar, ainda continuava sem café em casa.

Escrito por Ulisses Góes
Fotografia: Hunter Freeman
 
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