quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Diário de Um Escritor Astronauta ~ Escuridão

 
Voltando para casa, o Escritor Astronauta percebia algo diferente ao seu redor. Assim como sua percepção foi alterada por estranhar aquela floresta aparecer em um lugar onde tinha certeza ter visto momentos antes diversos prédios, agora caminhava pelas ruas e avenidas observando detalhes que jurava não fazer parte de seu mundo até algumas horas atrás. Um cartaz anunciando o show de uma banda cujo nome parecia diferente, uma placa de sinalização onde antes havia uma árvore, até mesmo uma pessoa conhecida, do outro lado da rua, vestida como policial militar prendendo um meliante em flagrante por tentar assaltar uma banca de revista que deveria estar na praça logo adiante, e não ali naquele ponto da avenida. "Espere um momento. Desde quando ele virou policial? Até onde me lembro, ele é advogado", pensou confuso o Escritor, enquanto observava parado aquela confusão acontencendo a poucos metros de onde estava. Seu amigo conhecido abria passagem entre a multidão curiosa, levando o infrator algemado até onde estava estacionada a viatura. "Que estranho. Será que ele agora é policial e eu não fiquei sabendo?", perguntou a si mesmo, enquanto retomava seu caminho de volta para casa. No céu, acima de sua cabeça, não havia mais qualquer sinal das borboletas que seguira mais cedo, mas apenas uma revoada rasante de andorinhas por entre prédios e árvores. Enquanto caminhava, ativou mentalmente páginas translúcidas de pesquisas na viseira de seu capacete com o intuito de certificar-se da profissão daquele conhecido amigo. Depois de alguns momentos, descobriu surpreso que seu amigo era, de fato, um policial militar. "Mas como? Eu tinha quase certeza de que ele era advogado. Seu escritório fica pelo Centro, não muito longe daqui". Um pouco confuso, sacudiu o capacete, afastando as imagens, e decidiu sair de sua rota para ir ao endereço onde funcionava o escritório de advocacia do amigo. Ao longo do caminho, seus passos ficaram gradativamente mais rápidos. Ao dobrar a esquina para a rua que seria seu destino final, esbarrou em alguém que vinha na direção contrária. Diferente das outras vezes, parou depois do esbarrão e olhou para o estranho,  que também havia parado à sua frente. Sentiu um calafrio quando viu aquele estranho de terno e gravata, careca e com um olhar que parecia o encarar silenciosamente, examinando seus pensamentos, enquanto inclinava a cabeça lentamente de lado. "Observador", pensou aflito o Escritor, desviando o olhar rapidamente e retomando seu caminho sem dizer uma palavra sequer, mas ciente de que aquelas coincidências estavam se tornando insistentes e estranhas. Reorganizou seus pensamentos e à medida em que ia chegando ao seu destino traçado de última hora naquela tarde, procurou o prédio onde ficava o escritório do amigo advogado. Estava quase perto, mais alguns metros. Quando o endereço já se encontrava praticamente ao alcance de sua visão, sentiu então o choque do momento sendo despejado em suas veias através de overdoses de adrenalina pura. Chegou ao local exato e descobriu que não havia qualquer prédio ali, mas apenas um imenso terreno baldio. Ficou parado, atônito, congelado pela situação anormal que o deixou com os pensamentos desorientados. Era estranho tudo aquilo e não fazia a menor ideia se aquilo era uma brincadeira maluca de sua mente, ou um grande equívoco que estava cometendo. "Posso ter me equivocado e acabei seguindo uma ideia meio louca. De repente, eu nem conhecia aquele policial, devo ter confundido ele com alguém que conheço, pela enorme semelhança. E este endereço, posso até estar em uma rua errada, ou então simplesmente demoliram o prédio que havia aqui antes. Está explicada essa minha confusão", disse o Escritor, procurando nitidamente dissipar todas as dúvidas com relação ao momento desorientado pelo qual parecia passar.
Retomou o caminho de volta para casa, enquanto percebeu em sua viseira pequenas imagens translúcidas surgindo, alertando sobre as condições climáticas tempestuosas que estavam para surgir naquele final de tarde. Informações como temperatura, pressão pluviométrica, umidade relativa do ar e velocidade do vento piscavam insistentes no lado esquerdo de sua viseira. O Escritor leu todos aqueles dados, olhou para o céu e então enxergou a tempestade aproximar-se lenta e perigosamente no horizonte. Decidiu apressar o passo assim que sentiu rajadas fortes de vento mais fortes que o normal atravessando as ruas. Conseguiu chegar na porta do seu prédio antes que qualquer chuva começasse a desabar, e ao entrar pela porta, um novo esbarrão, dessa vez com o carteiro que saía preocupado com aquele temporal iminente. "Carteiro. Isso me faz lembrar que preciso checar meus emails hoje para saber se tenho alguma resposta da Editora a respeito dos originais que enviei", pensou, enquanto subia as escadas. Fechou a escotilha de seu apartamento, tirou seu capacete, respirou fundo por ter chegado são e salvo em seu lar e foi até a cozinha, enquanto escutava trovões ao longe anunciando a tempestade. Fez um pouco de café, encheu uma xícara, andou pela sua sala afastando as dezenas de imagens translúcidas que sempre flutuavam pelo seu apartamento, sentou-se diante de seu computador e abriu seu email. Como havia previsto, a Editora havia respondido. Leu cada linha com atenção e constatou, profundamente decepcionado, que o editor-chefe informava que o original enviado não foi aprovado pelo Conselho Editorial, apesar dele particularmente ter gostado da história, que considerava de uma genialidade ímpar, segundo suas palavras ditas no email. Visivelmente desanimado e abalado com a resposta, o Escritor Astronauta sentiu uma alteração na força gravitacional exercida pela Terra naquele momento, como se influências negativas o estivessem pressionando contra o chão. A tarde estava se esvaindo mais rapidamente do que o habitual lá fora, e o céu havia escurecido antes do tempo por causa da tempestade que se aproximava anunciada por trovões distantes. Leu mais uma vez o email e parou exatamente no trecho em que o editor-chefe falava da tal "genialidade ímpar" de seus textos. Uma raiva contida começou a tomar forma em sua mente, e um torpor dominou seus sentidos por alguns instantes breves. Passou a mão na testa, massageando seus questionamentos mais interiores. "Se meu original é de uma genialidade ímpar, por que então diabos eles não aprovaram? Que porra de editor-chefe é esse, que elogia o que eu escrevo, e deixa um conselho editorial vetar meu trabalho?". Visivelmente chateado, pegou sua xícara de café e foi sentar-se no sofá da sala. A raiva aumentava a cada vez que lembrava do email. Sentiu um incômodo corroendo seu íntimo, um nervosismo contido começou a tomar conta de seus movimentos. Não tinha qualquer ânimo para escrever nada naquele momento. Olhou as imagens translúcidas com suas luminosidades sutis flutuando acima de sua cabeça, calibrando a penumbra que dominava o ambiente de seu apartamento naquele momento, invadida ocasionalmente pelos clarões da tempestade. A raiva que estava sentindo se misturava a outras sensações amargas, como decepção e tristeza. "Será que vai chover quando você morrer?", disse uma voz em um tom irônico controlando uma possível risada no final da frase, fazendo o Escritor ficar imóvel, enquanto mexia lentamente a cabeça procurando a origem da voz estranha. "Então me diga. Sua raiva é pela resposta negativa, ou por começar a considerar inútil tudo o que você tem feito até o momento em sua vida?", perguntou aquela voz, novamente segurando uma risada quase frouxa ao final da pergunta. "Vamos lá, cheque o seu cérebro. Descubra a raiz de seu problema, a causa de sua raiva contida. Cheque seu cérebro. Com certeza você vai descobrir o inútil ser humano que você é". Dessa vez uma gargalhada liberada em uma loucura esquizofrênica ecoou pela sala dominada pela escuridão da noite que se aproximava. Permaneceu sentado no sofá, e junto com a sua raiva, seu desânimo, sua decepção, agregou-se um pavor congelante pela estranha presença que estava sentindo em seu apartamento. A escuridão avançava por todos os lados. Encarou um canto da sala onde já dominava o breu supremo, e finalmente viu uma aparição sinistra caminhar lentamente com passos macabros e surgir em sua frente. Nos segundos seguintes, teve a nítida impressão de estar ouvindo Alice in Chains e seus acordes distorcidos de guitarra de "Check My Brain". A aparição sinistra parou diante do Escritor Astronauta. Era uma cópia fiel dele mesmo, e a única diferença entre eles era o traje totalmente preto que usava. A viseira do capacete estava aberta, porém o Escritor atônito não enxergava nenhum rosto ali. Aquele seu clone das trevas ficou parado alguns segundos criando um barulho de respiração abafada, fazendo o Escritor se sentir o próprio Luke Skywalker encarando seu pior pesadelo. Um medo perturbador dominou seus nervos assim que a voz estranha se fez ouvir de novo. "E então? Curtiu minha imitação de Darth Vader?", disse seu clone das trevas, dessa vez soltando outra risada sinistra, aproximando-se e encarando o Escritor. Um rosto apareceu dentro da escuridão do capacete, e o Escritor poderia jurar estar vendo a face do emblemático Coringa interpretado pelo falecido Heath Ledger. Seu coração pulsou acelerado pelo pavor daquele rosto sorrindo diante dele. Não fazia a menor ideia do que fazer e nem do que dizer. "O que foi? Faltaram palavras agora para expressar seu medo? Para um escritor, quando faltam as palavras, deve ser algo semelhante à morte, hein?". E novamente seu clone sinistro soltou uma nova risada impregnada de uma esquizofrenia negra. "Mas e aí? Já checou seu cérebro atrás das respostas? Vamos lá, você tem capacidade, eu sei que tem... Olhe para você, um escritor 'famoso', autor de tantas 'obras geniais'. Será que não consegue me responder algumas perguntas tão simples?", o clone sinistro, com aquele rosto conhecido saído diretamente do filme de Batman, sentou-se na mesinha de centro diante do Escritor, e o encarou por arrastados microssegundos e continuou com seu discurso desafiador. "Como é ser um fracassado? Fico me perguntando a todo momento como é que você se suporta, como você aguenta viver sabendo que tudo o que faz nunca leva você a lugar algum. Todos os seus esforços sempre em vão, seus projetos sempre ficando pelo meio do caminho. E você, coitado, sempre fingindo que está tudo bem. Porra, cara! Me diz aí, estou curioso pra caralho!".
O Escritor sentiu uma angústia invandindo seu íntimo, enquanto escutava aquele clone maldito calmamente questionar todos os seus atos para em seguida rir descaradamente em sua cara. Fechou os olhos, criou coragem e questionou o motivo de toda aquela intimidação que estava sofrendo, "Por que você está aqui? O que você quer de mim? Você quer me derrubar, não é? Você quer que eu entregue o jogo?". O clone das trevas do Escritor levantou-se exaltado, rindo, "Olha só, finalmente criou coragem pra dizer alguma coisa. E aí? Vai admitir que é um fracassado completo? Vamos lá, reconheça, me faça feliz, me encha de orgulho, porra!". Aquela frase parecia uma verdadeira ofensa para o Escritor, que reuniu força interior suficiente para abrir os olhos e confrontar aquele seu pesadelo sinistro e tudo o que ele insistia em dizer na sua frente. "Você quer que eu desista de tudo aquilo que eu acredito, seu desgraçado. Você não é mais forte do que minha vontade", disse o Escritor de maneira contida, cerrando o dentes, demonstrando raiva por ter deixado aquela situação toda se materializar naquele momento difícil para ele. O clone das trevas parou por um momento, como que pensando nas palavras ditas pelo Escritor. Em seguida, se aproximou de maneira ameaçadora, mantendo uma distância de centímetros entre seus olhares, "Meu caro. Não estou nem um pouco preocupado em medir forças com você. Isso, para mim, é desnecessário. Você tem que entender uma coisa: eu sou parte de você, e você é parte de mim. Você me alimenta com suas paranóias e dúvidas. A sua falta de fé em você mesmo é o que torna minha existência possível. Logo, enquanto você sempre duvidar de você mesmo, eu estarei aqui, presente, assistindo sua morte lenta". O Escritor começou a ficar atordoado com aquelas palavras, apoiando a cabeça nas mãos, querendo colocar seus pensamentos em ordem e buscando se livrar de todas aquelas sensações negativas. "Você não pode dizer o que devo pensar, e nem como devo me sentir!". O Astronauta negro com seu rosto sorridente de Coringa não desistia de atormentar o Escritor e continuava a falar. "Mas não sou eu quem digo como você se sente. É você mesmo. E nem pense que vai se ver livre de mim. Não é porque você pode estar alegre que eu não existirei mais. Eu estarei sempre com você, esperando na escuridão sua raiva, seu desânimo, sua decepção e sua tristeza se manifestarem de novo para eu aparecer e te mostrar que eu ainda estou aqui e que posso orientar suas atitudes nesses momentos tão deliciosos para mim. Cheque sempre seu cérebro, porque eu sou sua desilusão, sua dor, sua fraqueza, seu medo, sua loucura, seu passageiro mais sombrio". O Escritor Astronauta sentiu uma mão pesada o empurrar contra o sofá, deitando seu corpo à força. Não conseguia se mexer, e sua respiração ofegante deu lugar a uma falta de ar angustiante. Aquele clone das trevas o segurava, e o rosto maquiavélico do Coringa antes presente no capacete havia desaparecido completamente, deixando somente aquela respiração abafada e sufocante como um Darth Vader nervoso prestes a sugar sua alma. Lá fora, a tempestade começava com uma intensidade impressionante. O Escritor fechou os olhos, concentrou seus pensamentos, fazendo-os retroceder no tempo. Aquele dia passou ao contrário em sua mente. Lembrou-se de estar mais cedo conversando animadamente com sua amiga Carol, ouviu sua risada animadora, fixou seu pensamento neste momento compartilhado com a Feiticeira Lunar e, inesperadamente, a aparição sinistra desapareceu rapidamente através de um grito esfumaçado de pavor. Levantou-se, ainda com o coração acelerado, e percebeu uma mansa claridade entrando pelas janelas de seu apartamento. Estava amanhecendo, e uma chuva fina anunciava um dia frio e nublado. Olhou para seu computador. A página com o email enviado pelo editor-chefe ainda permanecia aberta, exatamente como ele havia deixado horas atrás.

Escrito por Ulisses Góes 
 
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