quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Diário de Um Escritor Astronauta ~ Narrativa

 
A primeira sensação experimentada ao abrir os olhos com certa dificuldade foi uma tontura, e logo em seguida o Escritor sentiu aquela dor forte pressionando suas têmporas. As imagens translúcidas na viseira de seu capacete mostravam informações desconexas e incompreensíveis, saindo do ar constantemente. Afastou todas aquelas informações da viseira, e percebeu que já era noite. Era possível que tivesse ficado desacordado por algumas horas ali no meio da rua, mas estranhou o fato de que não tivesse sido socorrido por ninguém que estivesse passando pela rua no momento daquele estranho acidente literário. Levantou-se e ficou surpreso ao constatar que a cidade estava completamente às escuras, mergulhada num blecaute sinistro. Deu dois passos, e sentiu novamente a dor latejando em sua cabeça, dessa vez com menos intensidade. Parou no meio da rua, olhando para os lados. Havia algo de perturbador ao redor, uma sensação estranha de abandono e perigo. Ao longe, na esquina no fim da rua, a cena de um carro aparentemente abandonado pegando fogo o incomodou a ponto de ficar meio confuso no momento. Estranhas silhuetas movimentando-se lentamente surgiram ao longo da rua. Eram pessoas andando em uma cadência descompassada, arrastando-se com alguma dificuldade. Olhou na direção oposta e tudo o que conseguiu ver foi uma escuridão aterrorizante e gemidos medonhos. A rua realmente parecia deserta, carros parcialmente destruídos, lixo espalhado por todos os cantos, grama despontando em todos os lugares, nas fissuras entre os paralelepípedos do meio-fio, em rachaduras pelas calçadas e em toda extensão da rua cheia de buracos e pequenas crateras. O Escritor ficou intrigado com aquele cenário desolador que surgiu no espaço de tempo em que ficou desacordado ali. "Por quanto tempo fiquei aqui apagado?", indagou a si mesmo. Tinha a impressão de que havia ficado, no máximo, uns 15 minutos desmaiado, mas já era noite, e pelo fato de já estar escuro, considerou que talvez tivesse ficado mais tempo inconsciente. Os gemidos continuavam a surgir agora de todos os lados, um pouco distantes, mas insistentes. As pessoas no fim da rua continuavam se aproximando lentamente, se locomovendo como sobreviventes atordoados depois de um acidente. Buscou acesso às imagens translúcidas da viseira de seu capacete, e tentou fazer uma pesquisa rápida procurando notícias sobre aquele blecaute que aparentemente atingira toda a cidade, ou sobre qualquer acidente nas imediações de sua rua. Entretanto, não conseguia acesso a nenhuma informação, e todos os canais de comunicação que tentava conectar pareciam fora do ar, páginas virtuais, canais de mídia, nada funcionava. Decidiu acessar frequências de rádio, na esperança de que conseguisse obter qualquer contato. Deslizou pelas faixas e finalmente conseguiu algo. Equalizou o máximo que conseguiu a sintonia até escutar nitidamente o que dizia a voz pausada do locutor. "Atenção. Estamos transmitindo através de uma faixa emergencial... Ouça com atenção... Se você está nos ouvindo, então isso significa que você não foi contaminado pelo vírus e é um dos poucos sobreviventes da epidemia que se espalhou pelos continentes... Mantenha-se afastado dos grandes centros urbanos e procure abrigo seguro no interior, longe das cidades... As informações sobre o que realmente aconteceu ainda são poucas e desencontradas... Repito, não é seguro permanecer nas cidades...". A transmissão ficou novamente instável e quase inaudível. Tentou estabilizar outras faixas de sinais de rádio, mas sem sucesso. Jogou as imagens para fora da viseira do capacete, e elas flutuaram luminosas diante de si, girando todas sem sinal de acesso. Então repentinamente uma imagem fora do ar iniciou automaticamente tentativa sucessivas de sintonia. O Escritor se concentrou naquela imagem, buscando ajustar o sinal para estabilizar sua frequência, e após alguns segundos silenciosos, finalmente conseguiu. Acertou o foco e então conseguiu visualizar o que parecia ser uma página de um livro com um texto extenso contando uma história. Em seguida começou a escutar em uma faixa mal sintonizada uma voz em off lendo o mesmo texto daquela página numa narrativa típica de documentário, "Quando a epidemia se alastrou de forma exponencial por todas as cidades de todos os continentes, viver acabou se tornando um desafio extremamente cruel. Quem conseguia se manter imune àquela catástrofe biológica, tinha que sobreviver em um verdadeiro inferno dantesco. Eles estavam por toda parte, proliferando-se como uma praga devastadora, destruindo toda a civilização humana. Aquela doença, cujos primeiros sintomas eram febre intensa, vômitos constantes e convulsões, afetava várias partes do cérebro, destruindo importantes redes neurais e conexões vitais. A racionalidade dava lugar a um instinto insano e animalesco aliado a um canibalismo insaciável. O mundo estava sendo assolado por esse errantes mortos-vivos, criando um cenário aterrorizante e promovendo o colapso de todas as estruturas de desenvolvimento da raça humana. Era o início de um apocalipse com gosto profundo de sangue". O Escritor diminuiu o som meio chiado daquela voz jovem em sua narrativa ininterrupta, e com certo ar de espanto, olhou ao seu redor, ainda sem compreender direito o que ocorria. Aquele texto narrado parecia descrever perfeitamente o que estava acontecendo ao seu redor, contando em detalhes todo o processo apocalíptico que havia destruido o mundo civilizado. Olhou novamente para o lado da rua onde as pessoas continuavam andando com seus passos arrastados e se aproximando dele, e nesse momento o Escritor se deu conta de que aquelas pessoas eram exatamente os errantes citados no texto narrativo. Experimentou aquele calafrio típico de quem se apavora diante de uma situação perigosa percorrer todo o seu corpo, e uma descarga intensa de adrenalina fez disparar seu coração. Atrás daqueles errantes caminhando a esmo pela rua surgiram outras dezenas deles, gemendo assustadores.
"Transmissões de alerta numa frequência de rádio desconhecida. Gente morta se arrastando pelas ruas. Mas que desgraça está acontecendo aqui?", disse em tom de desespero. Olhou novamente para a imagem translúcida do texto e viu uma informação nova piscando no canto inferior direito da tela. Um minimapa mostrava um ponto pulsando e números que pareciam coordenadas geográficas. Logo abaixo, uma legenda avisava, "Detectado Marco Zero de Possível Transmissão Narrativa". Intrigado, o Escritor arrastou aquela informação para o centro da imagem e a ampliou. Após alguns segundos, reconheceu o mapa que aparentemente parecia ser de sua cidade, com um ponto brilhante pulsando insistente. Deduziu que aquele ponto pudesse ser a origem daquela transmissão narrativa, o que significava que havia alguém naquele lugar da cidade que provavelmente estava utilizando as faixas de emergência para enviar mensagens de alerta sobre o que estava acontecendo. O local não era muito distante de onde estava agora, e começou a considerar realmente que precisava sair dali o mais rápido possível, pois aqueles estranhos errantes se aproximavam com maior agilidade, talvez pelo fato de o terem visto ali parado no meio da rua. O Escritor recolheu as imagens translúcidas, deixando apenas aquele minimapa com o ponto piscante ativo no canto superior de sua viseira. Estava em meio a uma escuridão preocupante dominando toda a cidade. E aquela noite sem lua contribuia para que todo aquele cenário ao seu redor mergulhasse em um breu apavorante. "Preciso saber para onde ir nessa escuridão", pensou o Escritor enquanto imaginava o que poderia ajudá-lo naquele momento crítico. A resposta em sua mente veio logo em seguida, quando o dispositivo mental instalado em seu capacete captou seu pensamento reproduzindo a imagem daquilo que mais necessitava. Sua viseira adquiriu um brilho esverdeado, o que significava que havia acionado mentalmente o mecanismo de visão noturna. Escutou gemidos cada vez mais próximos, e assustou-se ao olhar para o lado de rua onde a escuridão predominava e ver uma legião de errantes se arrastando rapidamente a poucos passos de onde estava. Correu sem demora por um beco estreito que desembocava em uma outra rua paralela, e só neste momento se deu conta de que não estava reconhecendo nenhum daqueles lugares. Não se recordava da existência de nenhum beco ligando a sua rua àquela outra desconhecida. Viu, com certo terror contido, errantes por toda parte, andando a esmo, em meio a carros abandonados e virados pelo meio da rua. Tinha que manter sua atenção dividida entre as informações que surgiam a todo momento no minimapa e aquelas aberrações sinistras que surgiram cambaleando pelas ruas após a explosão literária que o atirou para fora de seu apartamento. Seguiu o ponto luminoso constante no mapa durante cerca de 10 minutos, se esgueirando por entre automóveis capotados e vielas sujas. Quase sem fôlego, se escondeu dentro de uma banca de jornais. Entre pilhas de revistas amassadas e rasgadas, agachou-se, evitando qualquer ruído que chamasse a atenção daqueles seres bizarros. Reordenou seus pensamentos, tentando lembrar-se de fatos posteriores à sua queda que o havia deixado inconsciente, mas não se lembrava de absolutamente nada que pudesse ter ocorrido no tempo em que ficou desmaiado. Não conseguia encontrar explicação plausível para tudo aquilo. Afinal, como seria possível alguém permanecer desacordado por alguns minutos e de repente acordar em um mundo apocalíptico? Era a dúvida mais insistente naquele momento na mente do Escritor Astronauta. Um errante solitário passou gemendo debilmente ao lado da banca abandonada, despertando o Escritor de seu transe de dúvidas. Em estado de alerta, permaneceu imóvel, enquanto observava uma nova informação surgir no minimapa translúcido em sua viseira. "Marco Zero da Transmissão Narrativa Confirmado". Sentiu um alívio em saber que aquela transmissão realmente existia. Cuidadosamente arrastou-se para fora da banca, e certificou-se de que não havia errantes por perto antes de sair pela rua. Seguiu caminhando silencioso por uma grande avenida, sempre estranhando o fato de não reconhecer mais a sua cidade. Dobrou uma esquina rápido e deparou-se com uma horda de errantes, um encontro repentino, inesperado com um grupo imenso, um amontoado de seres imundos e esfarrapados tropeçando uns nos outros. Completamente aterrorizado e quase esbarrando nos errantes que seguiam logo à frente do bando, o Escritor não teve tempo de se esconder, cambaleando para trás com o susto. Por um segundo, aquela visão macabra de todos aqueles monstros o deixou sem ar, sem ação e sem voz para gritar de pavor pela cena que presenciava. Arrastou-se pelo asfalto, levantando em seguida, correndo desesperado pela avenida escura. Alguns metros adiante, escutou um rugido conhecido, um som de motor, e de um dos cruzamentos da avenida uma picape surgiu ameaçadora manobrando uma curva perigosa, fazendo cantar os pneus pelo asfalto. O Escritor parou atônito, olhando os fárois vindo rapidamente em sua direção. Não pensou duas vezes ao se jogar entre dois carros perto da calçada, deixando aquela picape passar veloz por ele. Levantou-se e ficou assistindo, espantado, a camionete cabine dupla seguir em direção da horda de errantes que até alguns instantes atrás o perseguia. O veículo seguiu em frente com seus faróis altos iluminando a cena sanguinolenta que se desenrolava enquanto ia abrindo caminho numa direção desafiadora, atropelando todas as aberrações que estivessem diante dele. Os gemidos dos errantes aumentaram e se uniram ao som das batidas abafadas das dezenas de corpos contra a carroceria da camionete. Pasmo, o Escritor apenas assistia aquela cena violenta quando algo chamou sua atenção no minimapa. Uma informação surgiu, e uma nova legenda logo abaixo das coordenadas precisas dizia: "Potencial aparecimento de um HOb. Tempo de Surgimento Retroativo: 20 minutos". "Um HOb? Espere um instante! Eu acho que sei o que isso significa. Um HOb, um HOb. Droga, eu já ouvi essa palavra antes, mas não consigo me lembrar". Aquele aviso deixou o Escritor um pouco confuso, pois ele tinha a impressão de já ter escutado alguém falar sobre aquilo para ele antes, mas sentiu uma dificuldade estranha em se recordar, aquela mesma sensação que invadia suas manhãs quando ele tentava em vão relembrar o que havia sonhado na noite anterior. A picape já estava longe quando deu uma freada brusca seguida de uma guinada, derrapando nos quatro pneus numa curva audaciosa, desaparecendo pelas ruas escuras da cidade. Ainda sem certeza do que realmente estava acontecendo, o Escritor seguiu sua jornada instantânea de descobrir a origem daquela estranha transmissão narrativa e encontrar a pessoa que a estava transmitindo. Antes que chegasse ao destino final daquela sua busca, encontrou novamente a picape, desta vez numa situação completamente adversa. Com os faróis ainda acesos, o veículo estava capotado em outra rua, os errantes sinistros avançando contra quatro jovens que corriam desesperados procurando abrigo em um prédio próximo. Um dos jovens usava uma espingarda para retardar os monstros, dando cobertura para os outros três. Uma garota levava uma besta em uma das mãos, e um outro rapaz empunhava um arco. Seus vultos adentraram pela recepção de um hotel, sumindo na escuridão aos gritos. Mais aberrações surgiram do outro lado da rua, fazendo com que o Escritor Astronauta decidisse sair dali o mais rápido possível. Foi a única vez em que viu aquele grupo de jovens.
Nos minutos seguintes, uma nova informação surgiu na imagem translúcida do minimapa, uma legenda substituiu a anterior, deixando o Escritor ansioso. "Aparecimento do HOb Confirmado. Interceptação do Marco Zero da Transmissão Narrativa em 2 minutos". Apressou o passo, atravessou mais dois quarteirões, caminhou ziguezagueando uma avenida congestionada de carros abandonados, até o ponto luminoso no minimapa finalmente parar de piscar. "Interceptação do Marco Zero da Transmissão Narrativa concluída. H.O.V.M. encontrado". Finalmente havia chegado na origem daquele sinal. Parou diante de uma praça arborizada quando enxergou, não muito longe de onde estava, algo emanando uma luminosidade azulada incandescente levemente bruxuleante, ao mesmo tempo em que começou a ouvir novamente aquela voz jovem ecoando em seus ouvidos, naquela narrativa ininterrupta, dessa vez falando sobre um grupo de quatro jovens que, após um acidente de carro, estavam presos em um prédio cercado de errantes. Foi aproximando-se lentamente daquela luminosidade até que começou a distinguir a silhueta de um garoto sentado em um gramado lendo um livro. Ele era o Marco Zero da Transmissão Narrativa. O Escritor parou por um momento e sorriu com aquela descoberta. Finalmente havia se lembrado o que significava a palavra HOb. "Sim, agora me lembro. HOb é uma expressão simplificada para definir as pessoas cuja leitura tem o dom especial de tornar real para ela e para as pessoas atentas à sua narrativa todo o universo existente nas páginas de qualquer livro", pensou o Escritor consigo mesmo. "E provavelmente com o impacto da queda, quando fui arremessado pela janela do meu apartamento, a viseira do meu capacete acidentalmente deve ter captado, mesmo à distância, a narrativa do HOb". Isso explicava como o Escritor acabou transportado para aquele mundo apocalíptico impregnado de monstros errantes. Seu amigo Sérgio havia lhe contado em uma outra oportunidade a respeito de uma experiência surpreendente que teve quando encontrou um HOb lendo um livro de poesias, transportando o Poeta Espacial literalmente para o universo vivo da leitura narrativa poética. O Escritor nunca tivera contato com um HOb antes, e agora estava diante de um jovem garoto leitor com essa habilidade fantástica, um Habitante Observador de Vários Mundos. Aproximou-se lentamente do garoto absorto na leitura e tocou em seu ombro. O jovem imediatamente parou a leitura, o encarou meio espantado, e todo aquele mundo obscuro e caótico de errantes onde se encontravam se desfez como cinzas caindo rapidamente ao chão, dando lugar à realidade que o Escritor provavelmente conhecia. O dia estava ensolarado, e a cidade fervilhava de pessoas em seu cotidiano frenético.

Escrito por Ulisses Góes
 
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