domingo, 29 de julho de 2012

Diário de Um Escritor Astronauta ~ Perturbação

 
As ideias queimavam a sua nuca, ele podia sentir mais do que nunca. Milhares delas provocando aquele latejamento ardente em sua mente. Atravessou a rua, ouviu sinos ao longe tocando em alguma igreja (por um momento pensou estar escutando "High Hopes", do Pink Floyd), viu crianças correndo ali perto antes de pousar novamente seus pés na calçada do outro lado da rua. O ardor da pastilha de Halls Eucalyptus Extra Forte havia estranhamente sumido do céu de sua boca, enquanto ele caminhava com um passo mais acelerado em direção ao final de tarde em sua casa. Tropeçou mais à frente numa pedra lunar (será que ele deixou cair do bolso de seu traje sem querer ou ela já estava ali anteriormente há alguns dias?) e momentaneamente lembrou do mesmo momento vivido pelo seu personagem, que havia tropeçado pouco antes de encontrar o Livro Satânico, provavelmente correndo da chuva que havia começado a cair momentos antes. Abruptamente o escritor astronauta parou de andar, como se algo estivesse atrapalhando sua visão da rua. E de fato estava. Por alguns breves momentos, a viseira de seu capacete foi inundada por imagens translúcidas e informações do personagem no qual havia acabado de pensar, e o momento de sua queda na rua foi vivenciado novamente por ele. Bateu no capacete, tentando desligar aquela inundação de informações que flutuava diante de seus olhos. Nessas horas sentia-se exatamente como o Homem de Ferro. Estranhamente, ao mesmo tempo em que conseguiu fazer sumir as imagens em sua viseira, outra pessoa esbarrou nele vindo de trás. Outra pessoa calva atravessando seu caminho numa pressa sutil e deslizante. Pensou em gesticular grosseiramente seu dedo médio e dizer alguns palavrões, mas percebeu que de nada adiantaria, pois os passos do transeunte foram muito mais rápidos do que seu pensamento. Respirou fundo e continuou andando com seu passo calculadamente acelerado, mas sem a mesma pressa daquele homem careca.
Quando passou por uma banca de revistas, sentiu uma perturbação na Força. Sim, aquela mesma Força literária que o dominava e o fazia agir como se tivesse que salvar mundos e pessoas havia sofrido um abalo estranho. Parou diante da banca, de cabeça baixa, e lentamente foi erguendo os olhos na direção das revistas, quando viu um rosto familiar na capa de um dos periódicos semanários. "Não! Não pode ser ele!", pensou, o olhar atônito, o coração aflito. A semelhança era incrivelmente impressionante. Dessa vez acionou as imagens translúcidas de sua história, buscando fazer um comparativo facial entre seu personagem e aquela personalidade que estampava a capa da revista.
Puxou mentalmente a imagem translúcida na qual estavam os dois irmãos, escondidos em um antigo prédio abandonado no centro da cidade, e os encontrou exatamente onde os tinha deixado da última vez. Eles estavam ali, amedrontados, desonfortáveis, assustados com aquela perseguição sem sentido. Estava na hora de encontrar uma maneira de tirar eles dali em segurança, para que pudessem encontrar sua amiga Hemilly. Ela era a única em quem confiavam e que poderia ajudar eles a resolver essa situação maluca na qual eles estavam agora metidos. Não podia haver nenhuma vacilo, e eles não poderiam cometer qualquer tipo de erro, pois os agentes estavam atrás deles. "Tudo por causa do livro negro", pensou o escritor. Mas espere um momento! Não foi por isso que tinha puxado aquela imagem. Não era momento de desenvolver a história daquele jeito. Não havia chegado em casa ainda. Havia feito uma busca com outro objetivo, e tinha que manter o foco nele. Mais uma vez, observou o rosto de seu personagem com o rosto na revista. "São idênticos! Não é possível!". Balançou o capacete insistentemente, fazendo sumir as imagens, e virou-se rapidamente. Continuou caminhando, dessa vez com passadas um pouco mais aceleradas, quase que flutuando a passos largos. Não demorou muito e avistou a entrada do prédio onde morava.
Subiu as escadas flutuando seus passos, tirou a chave de dentro de seu traje, abriu a escotilha e entrou em seu apartamento. tirou seu capacete, respirou fundo e deixou as ideias sairem de sua mente, tomando conta de todo o ambiente, até o teto. Milhares de imagens lúdicas e transparentes flutuavam ao seu redor. Enquanto pegava uma xícara de café, escutava as sirenes passando lá embaixo na rua, avisando sobre a violência que estava contaminando cada dia mais aquele mundo em que ele vivia atualmente. Passou pela sala e foi sentar na mesa perto da janela, onde estava seu PC. As ideias atrás de si permaneciam flutuando em imagens translúcidas, enquanto ele ligava o monitor, e olhava as horas no relógio logo abaixo. Respirou fundo, concentrou seus pensamentos numa tentativa de organizar as ideias suspensas ao seu redor. "Chegou a hora", pensou, enquanto seus dedos começaram a trabalhar no teclado.

Escrito por Ulisses Góes 
 
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