quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Diário de Um Escritor Astronauta ~ Surpresa

 
"Assim que Hemilly abriu a porta, Henrique e Roney entraram com passos nervosos e olhares assustados. 'O que aconteceu com vocês? Estão horríveis!', disse Hemilly, espantada e sem ação diante do avanço dos irmãos entrando em sua casa sem ao menos dizer um 'olá'. E ela tinha razão em afirmar que eles estavam horríveis. Na verdade, eles pareciam vindo de uma guerra, semelhantes a soldados fugindo de trincheiras lamacentas. Suas roupas estavam imundas, seus rostos arranhados e sujos de terra e fuligem. Henrique respirou fundo, o tempo necessário para recuperar o fôlego e contar para sua amiga tudo o que estava acontecendo com ele e Roney em um resumo fantástico que começava com 'Estamos sendo caçados', passando por 'tenho um Livro satânico que mata pessoas' e terminando com 'faça alguma coisa ou vão nos matar'. Hemilly procurou ouvir tudo atentamente, mas sempre interrompia a explicação de Henrique com inúmeras perguntas, da mesma forma que fazia com os professores no Colégio. 'Mas como vocês conseguiram escapar desses caras no prédio?', perguntou. Henrique hesitou alguns segundos antes de responder a pergunta, mas percebeu que não poderia esconder nada de sua melhor amiga e então confessou: 'Eu tive que matar um deles usando o Livro. Ele estava quase alcançando a gente'. subitamente Henrique parou de falar e olhou para seu irmão ainda assustado, que decidiu completar a explicação: 'É verdade, Hemilly. Um deles gritou o nome do outro que estava mais próximo do nosso esconderijo, e quando viu a gente, correu para nos agarrar. então Henrique simplesmente escreveu o mais rápido que conseguiu o nome do agente no livro. Não demorou 5 segundos, ele caiu no chão se contorcendo, cuspindo sangue pela boca'. Henrique permaneceu imóvel, de olhos fechados, imaginando novamente a cena sinistra. Em seguida, pegou o Livro, abriu em cima da mesa e mostrou o nome escrito com seu próprio sangue na primeira folha em branco, logo abaixo do primeiro nome que já tinha na página. 'Eu não tinha caneta', disse num tom quase sussurrante, olhando fixamente nos olhos espantados de Hemilly".
Subitamente o Escritor Astronauta parou de escrever, assustado com um barulho que vinha atrás de si. Uma esfera luminosa do tamanho de um punho fechado pulsava luzes de cores variadas, enquanto emitia um barulho desesperado semelhante a um telefone antigo. A imagem translúcida acima do seu monitor congelou no exato momento em que Henrique segurava o livro aberto em cima da mesa e olhava fixo para sua melhor amiga. Visivelmente chateado por ter sido interrompido em seu fluxo criativo de desenvolvimento narrativo, respirou fundo, bebeu o último gole de café de xícara, levantou da cadeira, afastou as imagens suspensas ao seu redor e foi em direção à esfera luminosa flutuando no meio da sua sala. Ao aproximar-se da esfera, a mesma parou de pulsar e de tocar desesperadamente como um telefone irritante. Em seguida, ouviu uma voz entrecortada por leves chiados de interferências tentando manter contato. "Alô!... está aí?... está me ouvindo?... tem um tempinho sobrando para falar com seu amigo distante?", dizia a voz insistentemente. O Escritor parou, espantado, tentando reconhecer quem estava entrando em contato imediato com ele. Ainda em silêncio, continuava a ouvir a voz falar, "Alô?... Alô!... Você vai fazer eu falar alô de novo? Alô!... Será o benedito? Terra chamando Marte! Ô seu moço, responde aí... Vamos conversar!". Ao ouvir aquelas frases, a expressão de espanto no rosto do Escritor se acentuou. "Será que é quem eu estou pensando que seja?", indagou-se pensativo. Aproximou-se mais da esfera, esperou aquela voz parar de falar tantos "alôs" e respondeu: "Sérgio? É você?". Meio segundo depois ouviu a resposta em tom descontraído: "Criatura espacial, até que enfim respondeu! Preciso saber como está. E a história que você está escrevendo?". "Eu estou bem, na verdade bem ocupado escrevendo", disse o Escritor. "Eu te interrompi? Que maldade a minha, desculpa, meu amigo!", Sérgio soltou uma risada e continuou a conversa. "Precisava entrar em contato. Escrevi alguns trechos poéticos e queria mostrar a você. É uma viagem alucinante e cósmica, você precisa ler!". Enquanto Sérgio falava, soltava risadas descontraídas entre suas frases, fazendo o Escritor se descontrair e se envolver naquele diálogo entre dois amigos que não se viam há muitas eras cósmicas que podiam ser condensadas em alguns anos. "Como você me achou?", questionou sorrindo o Escritor. "Com o olho que tudo vê", brincou Sérgio, soltando uma outra risada contagiante. "Sauron?", perguntou o Escritor descontraidamente, fazendo as risadas se prolongarem mais alguns segundos. Então lembrou-se do sonho terrível da noite anterior, "Sérgio, você nem faz ideia do pesadelo que eu tive noite passada". O Escritor começou a relatar o pesadelo no qual ele descobria que a história que estava trabalhando já tinha sido criada. Continuaram conversardo por mais alguns minutos a respeito desse assunto e também sobre o desenvolvimento dos trabalhos literários de cada um, o Escritor com seu livro e Sérgio com seus versos líricos e psicodélicos, quando o amigo distante inesperadamente interrompeu a conversa e disse, "Espera um instante. Espera só um instante... Sim, acho que estou descobrindo o destino final do sinal que te enviei. Espere um momento, estou quase descobrindo... só um instante. Estou rastreando a ligação. Quase lá... Pronto! Espero que o GPS tenha me dado as coordenadas corretas. Olhe pela janela de seu apartamento". O Escritor, meio surpreso, foi até a janela e viu seu amigo na calçada, o Poeta Espacial com seu traje dourado, acenando. "Desça, vamos ali tomar um café e trocar algumas ideias", ouviu Sérgio dizer através da ligação.

Escrito por Ulisses Góes
Pintura Fotorrealista: Jeremy Geddes
 
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