quinta-feira, 26 de julho de 2012

Diário de Um Escritor Astronauta

 
Ele olhava fixamente para o copo de Pepsi sobre o balcão da lanchonete, mas na verdade não era aquilo que ele via de fato. Seu olhar perdido vagava por ideias mirabolantes e desesperadas. Pensava em algum tipo de fuga arquitetada por uma pessoa acusada de assassinato, mas que se dizia inocente. "Eu sei que é verdade a inocência", pensava mergulhado em seus pensamentos. Enquanto o gás do refrigerante escapava aos poucos, ele imaginava sobre a fuga e pensava no melhor esconderijo. Tinha um irmão mais novo nessa história e era preciso proteger ele a todo custo, não importando o que tivesse que fazer. Nada poderia acontecer com ele. Ouviu uma voz vindo em sua direção, fazendo-o voltar à dura realidade ao seu redor. Era a garçonete trazendo o sanduíche que havia pedido. Mas praticamente não comeu nada, e por quase 5 minutos continuou olhando fixamente para o copo de Pepsi, sentindo como se estivesse mergulhando naquele líquido negro borbulhante e saindo em um outro mundo em questão de microssegundos.
O irmão caçula precisava ser protegido, precisavam fugir para um local seguro. "é preciso procurar a melhor amiga, aquela que adorava responder as perguntas na sala de aula, e que tinha um pingente misterioso com o símbolo de uma minúscula ampulheta que tinha usado da última vez para dar saltos no tempo". Sim, ele concluiu que era preciso procurar a melhor amiga, somente ela poderia dar toda ajuda necessária e confiaria completamente na inocência dos dois. Mas e quanto às pessoas que estavam seguindo os dois? Era praticamente certo o envolvimento deles com aquele assassinato, e com certeza deveriam neste momento estar pelas ruas procurando pelos dois. Também é certo que eles estão atrás do livro negro e misterioso que foi encontrado num dia chuvoso caído no meio da rua e que foi encontrado por ele. "Ele descobriu que o livro tem um poder macabro de matar pessoas, e quando encontrou o livro no asfalto molhado, tinha um nome escrito na primeira página juntamente com a maneira como essa pessoa morreria", pensou. 5 minutos de devaneios e então ele se levantou sem tocar no sanduiche e sem terminar de tomar o refrigerante. Tirou alguns trocados do bolso de seu traje branco e pagou a conta no caixa. Passou a mão na viseira do capacete, limpando uma sujeira de gordura que ficou presa no canto e que ele não fazia ideia de como foi parar ali. Olhou para os dois lados da rua, antes de sair da lanchonete. Na verdade, ele quase não prestava atenção nas pessoas que passavem ou nos carros buzinando no trânsito caótica da rua. Saiu andando com seus passos largados, quase flutuantes, enquanto voltava a pensar na fuga arquitetada, na amiga que dava saltos no tempo, no livro satânico e nos perseguidores que sempre andavam com seus ternos pretos impecáveis e seus óculos escuros. Então ele se lembrou de outro fato intrigante e lembrou no exato momento em que um transeunte esbarrou nele apressado, quase o derrubando. Ele era careca, e continuou andando como se nada tivesse acontecido, como se nem sequer tivesse esbarrado em alguém. "Sim, de fato, eles, aqueles que estranhamente estão por toda parte observando silenciosamente", pensou. "Quase me esqueço deles, os Observadores, que tem aparecido em quase todo lugar, como se estivessem analisando as situações, os fatos". E repentinamente, sem qualquer aviso, sua mente foi inundada por uma canção do Arctic Monkeys, soando forte em seus ouvidos. e ele não fazia ideia de onde vinha aquela música. Bateu no capacete algumas vezes, tentando se livrar dela, mas a canção continuava ecoando na sua mente. Parou na calçada um instante, colocou a mão no bolso de seu traje e tirou uma pastilha de Halls Eucalyptus Extra Forte, olhou para ela no mesmo instante em que começou a sentir aquela ardência intensamente refrescante em sua boca. Continuou andando até a esquina, observou o sinal fechado e os carros passando, e voltou novamente o turbilhão de pensamentos a carregar ele para bem longe, acima de tudo aquilo, toda aquela cidade, todo aquele universo de pessoas normais. Continuava pensando no irmão mais novo para proteger, na fuga que aconteceria, na amiga com o Pingente do Tempo, no Livro da Morte negro e macabro, nos agentes perseguidores, nos observadores sinistros. Como prosseguir com tudo aquilo? Como? O sinal abriu. Completamente indiferente a este mundo, ele atravessava a rua perdido em seus pensamentos, com a cabeça no espaço, milhares de ideias pegando fogo em sua mente. Milhares de situações a serem criadas, histórias a serem contadas, personagens para ganhar vida. "Preciso escrever quando chegar em casa", pensou o escritor astronauta, enquanto atravessava a rua.

Escrito por Ulisses Góes
 
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