segunda-feira, 30 de julho de 2012

"A pálida luz amarelada vinda de um poste na rua adentrava por uma das janelas quebradas naquele andar do prédio abandonado. Henrique segurava firme o Livro Negro sob essa luz enquanto observava atento sua capa de couro preta e enrugada adornada por um símbolo diabólico. Logo abaixo do símbolo estava escrito em letras prateadas 'Livro da Morte'. Seu irmão caçula Roney, que iria completar 13 anos no próximo mês, dormia ao seu lado, a cabeça pendendo em seu ombro, um sono de completo cansaço. Henrique já havia folheado aquele livro várias vezes, mas nunca se cansava de repetir a mesma ação, como se quisesse ter certeza de que aquele objeto em suas mãos de fato existia. Logo na contracapa havia uma espécie de regras de como utilizar o Livro, regras que já havia lido o suficiente para saber o poder que tinha em suas mãos. Subitamente um barulho estranho ecoou pelos corredores próximos de onde estavam escondidos, tirando instantaneamente a atenção de Henrique do Livro para a direção de onde viera o ruído sinistro."
Por um instante, os dedos do Escritor cessaram. Seu olhar fixo no monitor passou para o teto, como se quisesse descansar a cabeça inundada pela tensão do momento. Olhou a xícara de café ao seu lado e constatou, desolado, que não havia mais café. Levantou-se, decidido, afastou as imagens translúcidas que circulavam ao seu redor, e caminhou em direção à cozinha. "Preciso de mais café", pensou. As imagens flutuavam por todo o apartamento, e ele as foi afastando com gestos firmes até chegar ao armário da cozinha e descobrir um grave problema naquele momento. "É, Houston, temos um problema". O pó de café havia acabado. "Maldição! Até parece que vivo no universo paralelo de Fringe!", resmungou. Apoiou-se na pia e olhou de volta para o monitor de seu PC. Logo acima, pairava a cena exata em que sua história havia parado. O rosto assustado de Henrique olhando para a escuridão do corredor, tentando descobrir a origem do ruído estranho. Seu irmão ao seu lado ainda dormia. "Incrível como são semelhantes", falou consigo mesmo, ao se lembrar da descoberta feita mais cedo na banca de revista. Diante de si apareceu a imagem translúcida daquela capa de revista com aquele jovem ator. Segurou-a por um momento, enquanto encarava ela e projetava um comparativo com a imagem flutuando acima de seu monitor. "Impressionante", murmurou, e assim ficou por alguns largados segundos, até ser levemente sacudido pela lembrança da falta de café. "Sim, o café!".
Jogou a imagem para longe, caminhou até o sofá, pegou seu capacete, desligou o monitor do seu PC. Iria até o Supermercado da esquina, perto de sua casa, comprar café, alguns cigarros, e provavelmente algumas outras provisões para estoque. Encaixou o capacete em seu traje, limpou sua viseira, pegou as chaves, saiu, trancando a escotilha de seu apartamento, e desceu as escadas flutuando em seus pensamentos. Rapidamente sentiu de novo aquele queimor em sua nuca. As ideias começaram a borbulhar com o calor dos pensamentos. Caminhou pelos dois quarteirões que o separavam do mercado, dessa vez olhando para o chão, com receio de tropeçar novamente em alguma outra pedra lunar. Será que Drummond, o filho de seu vizinho, tinha algo a ver com aquelas pedras pelo meio do caminho? "Garotos sempre são cheios de artimanhas", pensou. Chegou ao Supermercado, atravessou os caixas, e foi passeando por entre as prateleiras cheias de produtos coloridos até chegar ao setor onde ficavam os pacotes de café à vácuo. Tinha essa mania de fazer sempre uma espécie de rastreamento do local, uma varredura preliminar de tudo o que havia nas prateleiras, ao mesmo tempo em que uma lista mental de produtos que costumava comprar aparecia na viseira de seu capacete. Passou pela área de doces, e pensou em pegar alguns M&Ms e mais pastilhas de Halls Eucalyptus Extra Forte. "Também uns tabletes de chocolate meio amargo, é uma boa ideia. E não posso me esquecer do café e cigarros, eu vim aqui justamente para isso". Foi nesse momento em que ele ouviu um zumbido forte e intermitente ecoando em seus ouvidos. Soltou os tabletes de chocolate, colocou as mãos no capacete, sentindo a vibração daquela estranha interferência, seguido de chiados rápidos e alternados com aquele zumbido quase insuportável, permanecendo em seus ouvidos por cinco segundos que pareceram uma eternidade interestelar. Assim que aquela interferência no sinal havia passado, o Escritor olhou ao seu redor, começando uma busca pela origem daquele ruído de estática que quase estoura seus tímpanos. Estranhamente, algumas imagens surgiram rapidamente mal sintonizadas na viseira de seu capacete. Ele parou e ficou observando aquelas imagens que iam e vinham como um canal quase fora do ar. Então algumas imagens apareceram com melhor sinal, ficando suspensas diantes de seus olhos espantados. "Mas que diabos é isso?", indagou, com uma expressão espantada.

Escrito por Ulisses Góes
Fotografia: Hunter Freeman

domingo, 29 de julho de 2012

As ideias queimavam a sua nuca, ele podia sentir mais do que nunca. Milhares delas provocando aquele latejamento ardente em sua mente. Atravessou a rua, ouviu sinos ao longe tocando em alguma igreja (por um momento pensou estar escutando "High Hopes", do Pink Floyd), viu crianças correndo ali perto antes de pousar novamente seus pés na calçada do outro lado da rua. O ardor da pastilha de Halls Eucalyptus Extra Forte havia estranhamente sumido do céu de sua boca, enquanto ele caminhava com um passo mais acelerado em direção ao final de tarde em sua casa. Tropeçou mais à frente numa pedra lunar (será que ele deixou cair do bolso de seu traje sem querer ou ela já estava ali anteriormente há alguns dias?) e momentaneamente lembrou do mesmo momento vivido pelo seu personagem, que havia tropeçado pouco antes de encontrar o Livro Satânico, provavelmente correndo da chuva que havia começado a cair momentos antes. Abruptamente o escritor astronauta parou de andar, como se algo estivesse atrapalhando sua visão da rua. E de fato estava. Por alguns breves momentos, a viseira de seu capacete foi inundada por imagens translúcidas e informações do personagem no qual havia acabado de pensar, e o momento de sua queda na rua foi vivenciado novamente por ele. Bateu no capacete, tentando desligar aquela inundação de informações que flutuava diante de seus olhos. Nessas horas sentia-se exatamente como o Homem de Ferro. Estranhamente, ao mesmo tempo em que conseguiu fazer sumir as imagens em sua viseira, outra pessoa esbarrou nele vindo de trás. Outra pessoa calva atravessando seu caminho numa pressa sutil e deslizante. Pensou em gesticular grosseiramente seu dedo médio e dizer alguns palavrões, mas percebeu que de nada adiantaria, pois os passos do transeunte foram muito mais rápidos do que seu pensamento. Respirou fundo e continuou andando com seu passo calculadamente acelerado, mas sem a mesma pressa daquele homem careca.
Quando passou por uma banca de revistas, sentiu uma perturbação na Força. Sim, aquela mesma Força literária que o dominava e o fazia agir como se tivesse que salvar mundos e pessoas havia sofrido um abalo estranho. Parou diante da banca, de cabeça baixa, e lentamente foi erguendo os olhos na direção das revistas, quando viu um rosto familiar na capa de um dos periódicos semanários. "Não! Não pode ser ele!", pensou, o olhar atônito, o coração aflito. A semelhança era incrivelmente impressionante. Dessa vez acionou as imagens translúcidas de sua história, buscando fazer um comparativo facial entre seu personagem e aquela personalidade que estampava a capa da revista.
Puxou mentalmente a imagem translúcida na qual estavam os dois irmãos, escondidos em um antigo prédio abandonado no centro da cidade, e os encontrou exatamente onde os tinha deixado da última vez. Eles estavam ali, amedrontados, desonfortáveis, assustados com aquela perseguição sem sentido. Estava na hora de encontrar uma maneira de tirar eles dali em segurança, para que pudessem encontrar sua amiga Hemilly. Ela era a única em quem confiavam e que poderia ajudar eles a resolver essa situação maluca na qual eles estavam agora metidos. Não podia haver nenhuma vacilo, e eles não poderiam cometer qualquer tipo de erro, pois os agentes estavam atrás deles. "Tudo por causa do livro negro", pensou o escritor. Mas espere um momento! Não foi por isso que tinha puxado aquela imagem. Não era momento de desenvolver a história daquele jeito. Não havia chegado em casa ainda. Havia feito uma busca com outro objetivo, e tinha que manter o foco nele. Mais uma vez, observou o rosto de seu personagem com o rosto na revista. "São idênticos! Não é possível!". Balançou o capacete insistentemente, fazendo sumir as imagens, e virou-se rapidamente. Continuou caminhando, dessa vez com passadas um pouco mais aceleradas, quase que flutuando a passos largos. Não demorou muito e avistou a entrada do prédio onde morava.
Subiu as escadas flutuando seus passos, tirou a chave de dentro de seu traje, abriu a escotilha e entrou em seu apartamento. tirou seu capacete, respirou fundo e deixou as ideias sairem de sua mente, tomando conta de todo o ambiente, até o teto. Milhares de imagens lúdicas e transparentes flutuavam ao seu redor. Enquanto pegava uma xícara de café, escutava as sirenes passando lá embaixo na rua, avisando sobre a violência que estava contaminando cada dia mais aquele mundo em que ele vivia atualmente. Passou pela sala e foi sentar na mesa perto da janela, onde estava seu PC. As ideias atrás de si permaneciam flutuando em imagens translúcidas, enquanto ele ligava o monitor, e olhava as horas no relógio logo abaixo. Respirou fundo, concentrou seus pensamentos numa tentativa de organizar as ideias suspensas ao seu redor. "Chegou a hora", pensou, enquanto seus dedos começaram a trabalhar no teclado.

Escrito por Ulisses Góes 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Ele olhava fixamente para o copo de Pepsi sobre o balcão da lanchonete, mas na verdade não era aquilo que ele via de fato. Seu olhar perdido vagava por ideias mirabolantes e desesperadas. Pensava em algum tipo de fuga arquitetada por uma pessoa acusada de assassinato, mas que se dizia inocente. "Eu sei que é verdade a inocência", pensava mergulhado em seus pensamentos. Enquanto o gás do refrigerante escapava aos poucos, ele imaginava sobre a fuga e pensava no melhor esconderijo. Tinha um irmão mais novo nessa história e era preciso proteger ele a todo custo, não importando o que tivesse que fazer. Nada poderia acontecer com ele. Ouviu uma voz vindo em sua direção, fazendo-o voltar à dura realidade ao seu redor. Era a garçonete trazendo o sanduíche que havia pedido. Mas praticamente não comeu nada, e por quase 5 minutos continuou olhando fixamente para o copo de Pepsi, sentindo como se estivesse mergulhando naquele líquido negro borbulhante e saindo em um outro mundo em questão de microssegundos.
O irmão caçula precisava ser protegido, precisavam fugir para um local seguro. "é preciso procurar a melhor amiga, aquela que adorava responder as perguntas na sala de aula, e que tinha um pingente misterioso com o símbolo de uma minúscula ampulheta que tinha usado da última vez para dar saltos no tempo". Sim, ele concluiu que era preciso procurar a melhor amiga, somente ela poderia dar toda ajuda necessária e confiaria completamente na inocência dos dois. Mas e quanto às pessoas que estavam seguindo os dois? Era praticamente certo o envolvimento deles com aquele assassinato, e com certeza deveriam neste momento estar pelas ruas procurando pelos dois. Também é certo que eles estão atrás do livro negro e misterioso que foi encontrado num dia chuvoso caído no meio da rua e que foi encontrado por ele. "Ele descobriu que o livro tem um poder macabro de matar pessoas, e quando encontrou o livro no asfalto molhado, tinha um nome escrito na primeira página juntamente com a maneira como essa pessoa morreria", pensou. 5 minutos de devaneios e então ele se levantou sem tocar no sanduiche e sem terminar de tomar o refrigerante. Tirou alguns trocados do bolso de seu traje branco e pagou a conta no caixa. Passou a mão na viseira do capacete, limpando uma sujeira de gordura que ficou presa no canto e que ele não fazia ideia de como foi parar ali. Olhou para os dois lados da rua, antes de sair da lanchonete. Na verdade, ele quase não prestava atenção nas pessoas que passavem ou nos carros buzinando no trânsito caótica da rua. Saiu andando com seus passos largados, quase flutuantes, enquanto voltava a pensar na fuga arquitetada, na amiga que dava saltos no tempo, no livro satânico e nos perseguidores que sempre andavam com seus ternos pretos impecáveis e seus óculos escuros. Então ele se lembrou de outro fato intrigante e lembrou no exato momento em que um transeunte esbarrou nele apressado, quase o derrubando. Ele era careca, e continuou andando como se nada tivesse acontecido, como se nem sequer tivesse esbarrado em alguém. "Sim, de fato, eles, aqueles que estranhamente estão por toda parte observando silenciosamente", pensou. "Quase me esqueço deles, os Observadores, que tem aparecido em quase todo lugar, como se estivessem analisando as situações, os fatos". E repentinamente, sem qualquer aviso, sua mente foi inundada por uma canção do Arctic Monkeys, soando forte em seus ouvidos. e ele não fazia ideia de onde vinha aquela música. Bateu no capacete algumas vezes, tentando se livrar dela, mas a canção continuava ecoando na sua mente. Parou na calçada um instante, colocou a mão no bolso de seu traje e tirou uma pastilha de Halls Eucalyptus Extra Forte, olhou para ela no mesmo instante em que começou a sentir aquela ardência intensamente refrescante em sua boca. Continuou andando até a esquina, observou o sinal fechado e os carros passando, e voltou novamente o turbilhão de pensamentos a carregar ele para bem longe, acima de tudo aquilo, toda aquela cidade, todo aquele universo de pessoas normais. Continuava pensando no irmão mais novo para proteger, na fuga que aconteceria, na amiga com o Pingente do Tempo, no Livro da Morte negro e macabro, nos agentes perseguidores, nos observadores sinistros. Como prosseguir com tudo aquilo? Como? O sinal abriu. Completamente indiferente a este mundo, ele atravessava a rua perdido em seus pensamentos, com a cabeça no espaço, milhares de ideias pegando fogo em sua mente. Milhares de situações a serem criadas, histórias a serem contadas, personagens para ganhar vida. "Preciso escrever quando chegar em casa", pensou o escritor astronauta, enquanto atravessava a rua.

Escrito por Ulisses Góes

terça-feira, 10 de julho de 2012

Você corre através do dia tentando captar todos os sinais e mensagens, mas a chuva atrapalha. Você gosta da chuva, mas precisa encontrar as mensagens e decifrar cada dia que vive através de você. Os pingos molham seus cabelos, ensopam sua roupa, enquanto sua mente explora arquivos diários, relembrando que você saiu cedo de casa, mal tomando sua xícara de café com leite. Selecionou algumas contas atrasadas, olhou as horas pela quinta ou sexta vez, como se quisesse ter certeza de que o tempo não estava contra você, pegou suas chaves e saiu sem dizer adeus para um apartamento cheio de ausências. Os compromissos do dia estavam a lhe esperar na porta do prédio, então você desceu as escadas com uma urgência fingida, quase cínica. Abriu o portão ruidosamente e sentiu a amplitude do corredor vazio.
Você anda através do dia sem entender a necessidade oca de algumas tarefas diárias. É preciso realmente realizá-las? Sua indagação é meio tímida, mas insistente, e você caminha na chuva, enquadrando as esquinas em seu itinerário e fugindo do tempo frio e úmido. Os prédios escondem o horizonte de seus olhos enquanto você vai seguindo a rota de seu cronograma previsto. A chuva continua caindo, seus pensamentos flutuando ao seu redor, e as luzes se acendem para um dia escuro. Você tem planos, mas parece que eles escapam sempre para o dia seguinte e ficam rodopiando em pequenos redemoinhos, enquanto aquela sensação de impotência misturada com ansiedade deixa aquele sutil gosto grudento em sua boca. Quer abraçar o mundo, mas é difícil quando suas mãos estão amarradas nas costas. Quer amar sem medo, mas é complicado quando seu coração é um sobrevivente cheio de cicatrizes de anteriores batalhas dolorosas.
Enquanto espera o sinal fechar para atravessar avenidas, alguém ao seu lado escolheu Deus como bode expiatório para as maldades obscenas que massacram seu pequeno mundo de desilusões. Mas para você, Deus se encaixa mais como uma brincadeira de mau gosto que atravessa os séculos e incomoda gerações. Perdido nesses pensamentos, entre um suspiro e outros seus passos se adiantam, deixando os outros pedestres para trás, ainda na expectativa do sinal abrir. Solto no meio do trânsito, você caminha indiferente aos carros, quando subitamente se assusta e olha para o lado no exato momento em que um ônibus o atinge em cheio.
Você acorda assustado, coração em ritmo de desespero, a mente tentando assimilar o mundo se abrindo para seus olhos arregalados. Tentando se acalmar, busca as horas no relógio pendurado na parede. Levanta-se lento, ainda um pouco atordoado. Superado o susto do pesadelo, você se arruma e corre através do dia tentando captar todos os sinais e mensagens, porém a chuva atrapalha. Você gosta da chuva, mas precisa encontrar as mensagens e decifrar cada sonho que pulsa dentro de você.


 
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